Introdução:
Trajetória pendular entre as personagens naives que permeiam os textos: romancesque tecem uma (re)presentação pictóricadas problemáticas que impelem as personagens de ambas as narrativas a migrações áridas ritmadas pela miséria e pelos sofrimentos dos excluídos, dos que vivem sob os auspícios das catástrofes naturais e injustiças, mazelas tão antigas, suas únicas herdades.
Universo das duas narrativas
Este trabalho visa sinalizar a universidade dos pontos integrantes das tessituras das duas narrativas que se configuram dentro da diversidade de estilo dos autores e das particularidades dos espaços por eles retratados. Dentre as diversidades, que não serão abordadas neste ensaio, por não serem fundamentais para o recorte proposto, destacam-se:
a) A diferença entre as realidades sócio-econômicas de Brasil e Itália;
b) O grau de instrução entre os excluídos brasileiros e os italianos, mas que proporcionalmente encontra-se em níveis equiparados nas margens das respectivas sociedades em que vivem;
c) Implicações de cunho político que se manifestam de maneiras distintas nas obras.
Tanto Vidas Secas como Fontamara impressionam pela identificação dos autores com suas personagens, fazendo com que os leitores participem das narrativas e reflitam sobre os problemas existentes no universo dos miseráveis rurais.
A proximidade dos autores com o sentimento de amor à terra das personagens, que sofrem com a sua aridez e dureza, mas que estão ligados a esta a ponto de se integrarem a paisagem, é o que dá vigor as narrativas e, o que torna os dois textos originais, pois estes relatam o universo dos retirantes e cafoni através da sua visão de mundo descartando os lugares comuns das narrativas naturalistas que apresentam o interior como um lugar pitoresco, tranqüilo em oposição às cidades.
O confronto entre cidade e campo se apresenta por meio dos homens e de seus signos lingüísticos e paralingüísticos.
Cidadãos do mesmo país, habitantes do mesmo topos, mas que não falam a mesma língua, não compartilham o mesmo registro – um dos fatores de exclusão.
Além da consciência lingüística presente nas narrativas temos também a interpretação da vida popular do mundo dos cafoni abruzeses traduzido freqüentemente na representatividade de uma bruxuleante pintura flamenga[1] e, segundo Antônio Cândido, a estrutura de Vidas Secas que é composta de pequenos quadros justapostos lembra certos trípticos medievais, em que a vida de um bem aventurado ou fatos de herói organizam-se em unidade bastante livre[2], teoria reforçada pelo fim do livro sugerir um início que engendra um ciclo.
Os exemplos e comentários que se desenrolarão, servirão para melhor ilustrar e delinear os tópicos anteriormente citados.
Homens da cidade versus homem do campo
Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa. Os negociantes furtavam na medida, no preço e na conta. O patrão realizava com pena e tinta cálculos incompreensíveis.
(Vidas Secas, pág.76)
Un cittadino ed un cafone difficilmente possono capirsi. Quando lui parlava era un cittadino, non poteva cessare di essere un cittadino, non poteva parlare che da cittadino. Ma noi eravamo cafoni. Noi capivamo tutto da cafoni, cioè, a modo nostro[3].
(Fontamara, pág. 21)
Cafoni e retirantes estão ligados à terra e fundem-se à paisagem, mas por não dominarem o mesmo registro lingüístico sentem a terra fugir-lhes por não integrarem o quadro sócio-lingüístico-cultural da cidade.
A cidade não é o seu território, lhe é hostil. Ocorre portanto, um processo de desterritorialização que os coloca como estranhos, estrangeiros daquele locus.
Este segundo processo expande-se no estranhamento causado entre o grupo de cafoni ou retirantes e o estranhamento do próprio “eu” presenciado por Fabiano em Vidas Secas e por Berardo em Fontamara.
Aridez da paisagem molda os homens
A aridez é o semantema dos espaços de Vidas Secas e Fontamara. Tanto os sertões nordestinos onde sobrevivem os "cabras" quanto as montanhas abruzenses dos cafoni de Silone impressionam pela aridez constituída de signos como: pó, poeira, pedras, escassez d'água, pouca vegetação e, pela fisionomia de seus habitantes, a maioria franzina como os arbustos secos que podem a vir florescer nos raros intervalos de abundância ou, de compleição forte como suas rochas.
A dificuldade de comunicação entre os homens da cidade e os cafoni de Fontamara por outro lado é atenuada entre cafoni e excluídos de outros países, sendo por vezes abissal entre os componentes da família de Fabiano.
Alarmou-se. Ouvira falar de juros e em prazos. Isto lhe dera uma impressão bastante penosa: sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente só serviam para encobrir ladroeiras.
(Vidas Secas, pág. 96)
L’imbroglio dei dieci lustri, venuto dopo l’imbroglio dei tre quarti e tre quarti, aveva aperto gli occhi anche ai ciechi[4].
(Fontamara, pág. 156)
A necessidade de nomear coisas e entender conceitos torna-se presente em ambas as narrativas.
Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito, soprou-a ao ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos, Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. (...) Livres dos nomes as coisas ficavam distantes misteriosas. Não tinham sido feitas por gente.
(Vidas Secas, págs. 83-84)
Non c’è usignolo; nel dialetto non c’è neppure la parola per designarlo (..) Per esprimere una grande emozione, la gioia, l’ira, e perfino la devozione religiosa bestemmiano[5].
(Fontamara, pág. 11)
Outro fator dificultado de não dominar a língua da cidade, a língua aprendida na escola e tê-la como língua emprestada é o de não poder se defender, não conseguir justiça, pois todas as leis e taxas defendem os interesses de quem as formula, ou seja, dos homens das cidades, dos grandes proprietários de terra, dos que “falam difícil”.
Os excluídos não traduzem bem seus anseios e necessidades na língua dos citadinos, mas pressentem o engodo sempre que há vocábulos dificultadores no discurso destes.
Mazelas como única herança
Nascera com este destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar de sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão. Era a sina. O pai vivera assim, o avô também. (..) Cortar mandacaru, ensebar látegos – aquilo estava no sangue.
(Vidas Secas, pág. 96)
(..)per vent’anni la solita terra, le solite piogge, il solito vento, la solita neve, le solite feste, i soliti cibi, le solite angostie, le solite pene, la solita miseria: la miseria ricevuta da padri, che l’avevano ereditata daí nonni, e contro la quale il lavoro onesto non è mai servito proprio a niente. (...) Nessuno a Fontamara há mai pensato che quell’antico modo di vivere potesse cambiare.[6]
Sempre que pensam no destino, no devir até um certo ponto das narrativas os retirantes e cafoni não possuem perspectiva de melhora, de modalidade social e tendem a justificar esta falta com a sua ancestralidade, tornando as misérias um bem, recebido de seus pais e legado de seus filhos, já que bens materiais não possuem, quando possuem são suficientes apenas para assegurar a subsistência da família.
Sacrifícios
Em Vidas Secas dois sacrifícios são realizados para assegurar a subsistência e segurança do grupo: o do papagaio no início da narrativa pouco antes da família se fixar em uma propriedade se resguardando da seca e, o da cadela Baleia, morte anunciada pelo nome não sobreviver no espaço, delimitando o recomeço do martírio dos retirantes que passam a vida tentando sobreviver a seca. Ressalta-se aqui antropomorfização destes dois animais que se aproximam da figura de Sinhá Vitória e Fabiano respectivamente.
Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida.
(Vidas Secas, 11)
Já em Fontamara Elvira sacrifica sua vida pela salvação de Berardo que por sua vez dá a sua vida em nome de uma causa que poderá transformar a vida de sua comunidade. Ele morre cumprindo o destino herdado de seu sobrenome Viola, que é a cor representante da Páscoa, ou seja, da redenção das ovelhas do Senhor por meio do sacrifício de uma determinada, ponto que reflete a religiosidade primitiva que permeia o texto de Silone.
E se io muio? Sarò il primo cafone che non muore per sé, ma per gli altri[7].
(Fontamara, pág. 197)
A seca e as revoluções são prenunciadas por acontecimentos estranhos e são propulsores de transformações necessárias para sobrevivência do grupo.
(..) una sfilata di uomini in camicia nera, allineati dietro bandierine anch’esse nere, com teschi e ossa di morti come ornamento tanto sul petto di quegli uomini quanto sulle loro bandiere[8].
(Fontamara, pág. 57)
Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto d’água, queriam matar o gado.
(Vidas secas, pág. 108)
Ambas fazem com que sertanejos e cafoni sigam em frente com esperança de que com a migração encontrarão um lugar para se fixarem e melhorarão de vida, pois têm a certeza de que o que ficou para trás foi o medo e a insegurança:
Viver como tinham vivido, numa casinha protegida pela bolandeira de seu Tomás. Discutiram e acabaram reconhecendo que aquilo não valeria a pena, porque estariam sempre assustados, pensando na seca.
(Vidas Secas, pág. 120)
Adesso stiamo qui.
Per mezzo del Solito Sconociuto, col suo aiuto, siamo arrivati Qui all’estero. Ma è chiaro che non possiamo restarvi.
Che fare?
Dopo tante pene e tanti lutti, tante lacrime e tante piaghe, tanto odio, tante ingustizie e tanta disperazione, che fare?
(Fontamara)
Que fazer? Esta pergunta que aparece tanto em Vidas Secas como em Fontamara faz com que se repense todos os infortúnios e injustiças do passado e que se pense no futuro.
Há uma esperança para os excluídos a partir do momento em que se vejam como agentes construídores de um futuro que começa a se modificar quando sua percepção do mundo ao redor e seus anseios se alteram no presente.
Agora estamos aqui.
Por intermédio do Desconhecido Habitual, com a sua ajuda, conseguimos passar a fronteira e chegar aqui, ao estrangeiro. Mas é claro que não podemos cá ficar.
Que fazer?
Depois de tantas penas e tantas lutas, tantas lágrimas e tantos sofrimentos, tanto ódio, tantas injustiças e tanto desespero, que fazer?
Referências Bibliográficas:
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas 71.ed., Rio de Janeiro, São Paulo, Record, 1996.
SANT'ANNA, Antônio Romano de. Análise Estrutural de Romances Brasileiros. Petrópolis, Vozes Ltda., 1973.
SILONE, Ignazio. Fontamara. Milão, Mondadori, 1988.
SILONE, Ignazio. Fontamara. Tradução: Fernando Moreira Ferreira. Lisboa, Publicações Europa América.
VIRDIA, Ferdinando. Silone. Florença, Il castoro, 1972.
[1] Antônio Romano de SANT'ANNA. Análise Estrutural de Romances Brasileiros.
[2] Ferdinando VIRDIA. "Silone".
[3] “Um citadino e um cafone dificilmente podem entender-se. Quando ele falava era um homem da cidade, não podia deixar de ser, não podia falar senão como tal. Mas nós éramos cafoni... Nós compreendíamos tudo como cafoni, isto é, a nossa maneira.” (Fontamara, pág. 26).
[4] “A trafulhice dos dez lustros, depois da intrujice dos três quartos e três quartos, tinha aberto os olhos até aos cegos." (Fontamara, pág. 180).
[5] “E no que respeita o rouxinóis , é coisa que por lá não existe: no dialeto local nem sequer há palavra para os designar (Fontamara, pág. 16) (..) Para exprimirem uma grande emoção, a alegria, a ira, e por vezes a devoção religiosa praguejam.” (tradução: Sandra Leite).
[6] “(..);durante vinte anos consecutivos, a mesma terra, as mesmas chuvas, o mesmo vento, a mesma neve, as mesmas festas, as mesmas refeições, as mesmas angústias, as mesmas penas, a mesma miséria: a mesma miséria herdada dos pais, que a tinham herdada dos pais, dos avós e contra a qual se lutava inutilmente, por mais que se trabalhasse. (...) Ninguém em Fontamara pensara alguma vez que aquele estilo de vida, tão antigo, pudesse se modificar.”(Fontamara, pág. 9-10)
[7] E se eu morrer? Serei o primeiro cafone que não morre por si, mas pelos outros...
(Fontamara, pág. 226)
[8] “(..) um desfile de homens de camisa negra, alinhados atrás de bandeirinhas também negras, com caveiras e ossos de mortos como ornamentos, tanto no peito dos homens como nas suas bandeiras." (Fontamara, pág. 67).